O Padre José Manuel Leite Penteado, irmão do Cônego Lourenço e de Francisco Xaviér, como êlles era mestre em artes pelo collégio dos jesuitas, typo curioso do sacerdote indigena do século dezoito. Era um producto do meio e do tempo em que viveu. Falho como sacerdote, pôsto não se lhe apontem máculas de caracter, foi antes de tudo um paulista. Daria, de certo, como seu parente, o Padre Guilherme Pompêu, um bello typo de romance, si, como êlle, houvesse resvalado na perigosa senda, onde se catam as vulgaridades mais ou menos douradas.
Filho de bandeirantes, cujas inflammadas narrativas mais o haviam de inclinar pâra as asperêzas do sertão, que para os rigôres da penitência, não buscâra o Padre José Manuel, na milícia sacerdotal, mais que a instrucção regular em que primavam os padres da Companhia. Bem que, de seu natural, afável, benigno e cortês, passou-se para as minas de Cuyabá, onde se estabeleceu com numerosa escravatura.
Gozando sempre de respeito igual ao seu merecimento, grangeou, além de fartos e abundantes cabedáes, também a lama de bravo, em uma expedição que armou á sua custa e capitaneou á frente de muitos parentes, familiares e escravos.
Foi o caso que, no anno de 1762, se veiu entrincheirar, nas margens do Guaporé o castelhano D. Alonso Verdugo, com grossa artilharia e mil e duzentos soldados de tropas regulares trazidas do Perú e Buênos Aires.
Impedia a fortalêza o passo e o curso das barcas ou igaritês que deveriam levar soccorro ao nosso governador e capitão general D. Antônio Rolim de Moura, conde de Azambuja, que na barra do rio Mamoré se encontrava em posição indefensável, com cem homens apenas de combate, sem mais disciplina que o ardôr de se baterem como desesperados.
Com o efficaz refôrço do Padre José Manuel "fugiram os castelhanos do ataque, tão aterrados e abatidos que, quando chegou o tratado de pazes, estiveram por tudo quanto quiseram os nossos". Assim se exprimia o general Moura, em carta de 3 de outubro de 1763, dando graças a N. S. da Conceição e a S. José, "porque o poder do inimigo era muito desproporcionado ao nosso, parecendo que só o conservar-nos era grande temeridade".
Tal era o Padre José Manuel Leite Penteado, fallecido em Mato-Grôsso, a 20 de setembro de 1768, "deixando um sentimento geral áquêlles moradores, que o respeitavam como columna de toda protecção". Sertanista e soldado por índole, por educação e por exigências do mêio, melhór fôra que houvesse seguido o exemplo de seu irmão Francisco Xaviér. Todavia, conseguiu impôr-se á estima publica pela prática da caridade despendendo fartamente no serviço dos pobres, da Igrêja e da repúbliça.
Legando, por inventario, 17,400 oitavas de ouro, que então se avaliaram em 26:100$ réis, observa Pedro Taques que não deixou ouro em pó, pois todo o consummiu liberalmente em obras pias e no tratamento dos pobres enfêrmos das carneiradas, como alli se chamavam as sezões ou febres intermitentes.
Da sua capella de N. Senhora do Pilar, dotada com 3.000 cruzados e um grande engênho de assúcar, não ha hoje notícia, desapparecida, talvez, na vorágem que consummiu o patrimonio de quasi todas as nossas primitivas fundações religiosas.